sexta-feira, 31 de março de 2017

Olhares que observam...

Mais uma viagem. Linha amarela.

Desta vez atrasada.
Desço as escadas num frenesim para entrar na carruagem.

Sento-me e os meus olhos imediatamente se enchem de ternura pela mulher que está à minha frente.
Cabelos loiros.

Magra.
Pele clara, de uma textura que pede o toque.

As suas mãos levam-me às horas de trabalho que todos os dias precisa para vencer num país que não é o seu, numa profissão que não é aquela para a qual estudou em menina.

O seu olhar distante faz-me sentir um misto de tristeza e ternura.

No colo, um colar com uma palavra num idioma que me é desconhecido.

Tenho a certeza que se eu a soubesse ler, leria a palavra saudade.

Ana Paula Castro
(linha amarela, 31/03/2017)

terça-feira, 28 de março de 2017

O maquinista

Hoje durante a viagem por linhas metropolitanas, não escrevi nada. Nem no papel, nem no telemóvel.
Mas estava para aqui a pensar com os meus botões, de todos os rostos que vi qual o que me sobressaiu mais...

E acho que foi mesmo o do maquinista.

Quando a carruagem vem, eu sempre fico atenta ao maquinista. Tento ver o rosto daquele que me vai levar até ao meu destino.

Sempre de rosto sério, triste(?) de quem está sozinho, percorrendo sempre os mesmos caminhos. Em gestos automatizados dos quais nem se recorda fazer.

Segue aquela linha.

Vai.
Regressa.
Vai.
Regressa.

Ironia.

Dentro das carruagens vão centenas de pessoas.

Apressadas.
Apertadas.
Sonolentas.
Abafadas.

Sem se lembrarem dele. Sem nunca pensarem nele.

O maquinista que as leva todos os dias para os seus destinos.

Hoje pensei nele.
Hoje não o vi.
Observei-o.

E quero agradecer-lhe.

Porque me sorriu e me fez sorrir também.

Ana Paula Ribeiro

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Instantes

Há instantes que vivo contigo que me deixam a ensandecer.
Mas não me deixo levar pelo desvairo dos momentos em que te toco.

A ti que não sabes o que sinto.

Nesse momento doce e tranquilo, mas quase louco, agarro-me… calo o meu desejo. Fecho os olhos e sinto-te como se fosse uma última vez.

Se eu pudesse parar o tempo ...

Tanto fujo e estou cada vez mais presa a ti.

Quando vais, fica aquele gosto amargo.

De quem não fez o que sentia.

De quem não disse o que queria.

Paula

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Hoje é dia de

Não sou muito dada a esta coisa do "dia de..."... mas li algures que hoje é dia do amigo e sigo aqui, sentada no metro, ouvindo a minha música e mais uma vez as pessoas olhando cada uma para o seu telemóvel.

Resolvi escrever umas linhas sobre os meus amigos e sobre o que poderá ser isto de ser-se amigo.

Nunca fui muito boa naquilo que poderá ser o ideal para alimentar uma amizade. Não costumo telefonar, muitas vezes não fui ao tal café e durante estes anos que passaram foram muitos os contactos que perdi. Daqueles que gostaria de ter mantido e que acabei por perder o rasto, precisamente por esta ausência.

Será por preguiça, porque tenho muitas fases de solidão que me alimenta, por adversidades da vida e/ou sobretudo desorganização. Sou péssima a gerir o tempo.
Tenho noção desta minha dificuldade e tenho tentado melhorar, mas isto quando se é mais cota fica mais difícil.

No entanto quero deixar muito claro o seguinte: tenho amigos para a vida inteira com os quais não preciso falar todos os dias. Aliás, passam-se meses sem que falemos. No entanto, e digam lá outra vez que sou doida, o universo tem umas coisas deliciosas, e muitas vezes quando estou mais em baixo, lá recebo um telefonema ou um SMS inesperado que me põe um sorriso e me lembra que sou uma felizarda. Como o que acabo de receber agora e tive que parar de escrever esta nota para o ler :)

Com estes amigos tenho aprendido que amizade é isto. É estar lá até mesmo sem saber que somos necessários. Sem cobranças, nem caganças. Com a verdade,  dizer o que sentimos e aquilo que somos. Sem medos.

Rir à gargalhada, chorar quando nos apetece sem ouvir dizer não chores.
Ficar sentado lado a lado sem ter que dizer uma única palavra. Só porque sim. Porque nos apetece.

Mesmo não sendo uma "alimentadora" perfeita das minhas amizades, tenho amigos assim.

Neste momento já vou noutra carruagem, em pé e tipo sardinha em lata ... e ao olhar em volta penso, quantos destes amigos aqui têm a mesma sorte que eu?

Paula

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Coragem

Por vezes a nossa bagagem tem recordações que nos tolhem os passos...

O que de menos bom vivemos (para não dizer mau) não nos deixa voar, porque o receio de cair de novo em queda livre é tremendo.

Paula