segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Caminhos...

Bem gostavas de ter a rota controlada.

Poder caminhar tranquilamente sabendo que não haverá sobressaltos...

Mas a caminhada não está escrita de forma a que sejas tu a decidi-la.

O passo podes dá-lo para a esquerda e pensar que tomaste uma decisão, mas isso foi apenas porque à direita não havia um caminho escrito ainda.

Seja que caminho for, agarra-o.

Vive-o.
Mantem-te fiel à tua pessoa.
Gosta de ti.

E de repente o melhor acontece.

Não troco este meu caminho por nenhum outro deste mundo.


Ana Paula Ribeiro

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Olhares perdidos de ternura

Acordo com um sorriso de quem adormeceu feliz.

Na minha rotina entro na carruagem, pego no telemóvel e ponho a playlist a tocar. Mas o telemóvel resolveu contrariar a minha vontade e reiniciou…

Neste entretanto, reparo num senhor sentado do outro lado, duas filas à frente.

Cerca de 80 anos, cabelo grisalho, rosto virado para a janela.
Nem mesmo o pó que se via no vidro impediu o reflexo daquele olhar, que me tocou de imediato.
Uma alma perdida, machucada. Tão amarrotada quanto a sua camisa.

Caramba! Aquele olhar!… um olhar de saudade.
Saudade de quem já não está.
Saudade do que viveu, do bom que ficou na memória, cravado no seu coração.

Gerir estas recordações, nem sempre é fácil.
São os nossos amores. Incondicionais ou não, mas os nossos amores.

Nem sempre é fácil.
Mesmo que tentemos substituir por outros bons momentos, os atuais…
Tu vais lembrar-te sempre.
Vai ‘bater’ aquela saudade.
Pensar que podias ter dito tanta coisa. Feito tanto.
Mas o coração mantém-se vivo.

Continua batendo tanto quanto a saudade.

E a vida, essa, segue também.
Mesmo que com a saudade…

a que te faz brilhar os olhos de emoção e também sorrir de ternura.

E foi essa a última imagem que vi.
Foi com essa imagem que sai da carruagem.
É com essa ternura que me vou deitar hoje, feliz.

Um sorriso daquele homem de cabelo grisalho,
que no meio do pó descobriu recordações de uma vida.

(hoje este texto é dedicado às minha “meninas” Ana e Manuela que sei, vão entender cada palavra)

Ana Paula Ribeiro

terça-feira, 8 de agosto de 2017

E sim, vale MUITO e TANTO a pena!

Nem sempre o muito quer dizer tanto. Ou o tanto revela felicidade.

Muitas pessoas à volta.
Tanta solidão.

Às vezes descobre-se tarde esta ironia de palavras e sentires.
Quando já aquele pelo branco teima em sobressair do meio das tuas sobrancelhas, e tu sentes-te incapaz de lutar contra ele e virar-lhe as costas.

No fim … acredito que seja quando tem que ser...
Quando te sentes preparado.
Quando estás de peito aberto para receberes o melhor que a vida tem para te dar.
E dás importância ao que te faz bem.

E sim, vale MUITO e TANTO a pena!

Partilho hoje este pensamento porque li algures que a maioria das pessoas morre sem estar ninguém por perto.

Não é isso o que mais importa.

O mais importante é apercebermo-nos se efetivamente vivemos estando acompanhadas.

Ana Paula Ribeiro

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Passageiros que nos fazem falta

Hoje vim durante a viagem no metro sem dar pelas pessoas à volta, sem observar as histórias que contam os seus olhos.

Vieram os meus a contar várias com certeza, entre uma lágrima ou outra que caiu, sem que eu conseguisse conter.

Ainda estou a recuperar de um misto de emoções que ontem vieram fazer-me uma visita e que teimam em instalar-se ainda por cá e me levam a escrever esta nota.

Partilhei emoções com alguém que perdeu a sua mãe e que por vários motivos me recordaram pessoas que foram minhas pessoas e que perdi há anos.

Não é fácil gerir o fim da viagem daqueles que aprendemos a amar. Daqueles que nos ensinam tanto e nos fazem crescer.

Hoje, dizem, é dia dos avós. Seria o dia deles.

Tenho a sorte de os meus filhos terem os meus pais vivos e poderem ainda disfrutar dos avós.

Eu pouco ou nada convivi com os meus.

Sinto pena, mas do fundo do coração, o sentimento nunca poderá ser tão forte quanto a dor pela ausência daqueles que foram meus segundos pais.

Perde-los foi a maior dor que senti até hoje e ontem foi mesmo insuportável recorda-la.
As pessoas não deveriam sofrer tanto quando chegam ao fim da viagem. Deveriam poder sair da carruagem em paz e tranquilas.

Cheguei à estação onde saio todos os dias para o trabalho e fui obrigada a voltar à realidade.

Mas das memórias que me assolaram ontem e dos momentos que vivi depois tomei consciência mais uma vez de que a vida é mesmo uma viagem.

Devemos faze-la da melhor maneira que sabemos e aproveitar o bom que ela nos trás.

Ela nos leva passageiros que para sempre nos farão falta, mas traz-nos outros que nos dão tudo aquilo que precisamos.

São estas as nossas pessoas. As que devemos cuidar e preservar. As que realmente importam.

Aquelas com as quais devemos partilhar os nossos silêncios.

Tu.



Ana Paula Ribeiro 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A linha da vida. A estação de saída.

Viajo há 44 anos.

Nasci em Angola, em casa, a carruagem onde os meus pais viviam na altura com o meu mano.
Sentiam a ansiedade de quem vai receber um novo passageiro.
O meu mano, com 9 anos, ouviu o choro e pensou ser uma galinha!
Ainda hoje o meu pai conta este episódio e me faz sorrir.

Nesta viagem que faço há tantos anos, passei já por tantas estações...
Umas fisicamente,
outras em pensamento.

Vivi já tantas emoções...
Umas boas,
outras menos boas.
Sejam de que tipo for,
das que arranham a alma e nos fazem sentir vivos.

Quando fazes a viagem da tua vida, as estações vão passando e tu, porque precisas não perder o ritmo desta vida louca, decides rapidamente se sais nesta ou naquela.
Muitas vezes nem dás pela decisão.
Apenas sais e quando dás por ti é seguir caminho e fazer dele o melhor que sabes e podes naquele momento.

E entras noutra... e segues caminho.

Às vezes, sentes mesmo que não estás na carruagem certa, mas a luz escura que vem do túnel assusta.
O desconhecido e a incerteza são bilhetes inválidos para quem precisa de coragem para avançar, passar a cancela... mas tem medo.

De repente... aquele momento.

Sentes-te a aproximar de uma estação que em tudo te leva a ter certezas.

Te acorda.
Te dá esperança.
Te conforta.
Te tranquiliza.
Te enche o peito.
Te faz vibrar.

As portas abrem...
É nesse momento que apareces tu.

À minha espera.
De sorriso desconcertante.
Olhar que me faz sentir certezas.

Cheguei!

Tenho 44 anos.

Fartei-me já de viajar por tantas estações nesta linha da vida.
E penso, é mesmo nesta estação que quero sair!

Não.
Penso melhor. Não vou sair

Não é medo...

convido-te a entrar e a fazer o resto da minha viagem comigo...


Ana Paula Ribeiro