quarta-feira, 26 de julho de 2017

Passageiros que nos fazem falta

Hoje vim durante a viagem no metro sem dar pelas pessoas à volta, sem observar as histórias que contam os seus olhos.

Vieram os meus a contar várias com certeza, entre uma lágrima ou outra que caiu, sem que eu conseguisse conter.

Ainda estou a recuperar de um misto de emoções que ontem vieram fazer-me uma visita e que teimam em instalar-se ainda por cá e me levam a escrever esta nota.

Partilhei emoções com alguém que perdeu a sua mãe e que por vários motivos me recordaram pessoas que foram minhas pessoas e que perdi há anos.

Não é fácil gerir o fim da viagem daqueles que aprendemos a amar. Daqueles que nos ensinam tanto e nos fazem crescer.

Hoje, dizem, é dia dos avós. Seria o dia deles.

Tenho a sorte de os meus filhos terem os meus pais vivos e poderem ainda disfrutar dos avós.

Eu pouco ou nada convivi com os meus.

Sinto pena, mas do fundo do coração, o sentimento nunca poderá ser tão forte quanto a dor pela ausência daqueles que foram meus segundos pais.

Perde-los foi a maior dor que senti até hoje e ontem foi mesmo insuportável recorda-la.
As pessoas não deveriam sofrer tanto quando chegam ao fim da viagem. Deveriam poder sair da carruagem em paz e tranquilas.

Cheguei à estação onde saio todos os dias para o trabalho e fui obrigada a voltar à realidade.

Mas das memórias que me assolaram ontem e dos momentos que vivi depois tomei consciência mais uma vez de que a vida é mesmo uma viagem.

Devemos faze-la da melhor maneira que sabemos e aproveitar o bom que ela nos trás.

Ela nos leva passageiros que para sempre nos farão falta, mas traz-nos outros que nos dão tudo aquilo que precisamos.

São estas as nossas pessoas. As que devemos cuidar e preservar. As que realmente importam.

Aquelas com as quais devemos partilhar os nossos silêncios.

Tu.



Ana Paula Ribeiro 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A linha da vida. A estação de saída.

Viajo há 44 anos.

Nasci em Angola, em casa, a carruagem onde os meus pais viviam na altura com o meu mano.
Sentiam a ansiedade de quem vai receber um novo passageiro.
O meu mano, com 9 anos, ouviu o choro e pensou ser uma galinha!
Ainda hoje o meu pai conta este episódio e me faz sorrir.

Nesta viagem que faço há tantos anos, passei já por tantas estações...
Umas fisicamente,
outras em pensamento.

Vivi já tantas emoções...
Umas boas,
outras menos boas.
Sejam de que tipo for,
das que arranham a alma e nos fazem sentir vivos.

Quando fazes a viagem da tua vida, as estações vão passando e tu, porque precisas não perder o ritmo desta vida louca, decides rapidamente se sais nesta ou naquela.
Muitas vezes nem dás pela decisão.
Apenas sais e quando dás por ti é seguir caminho e fazer dele o melhor que sabes e podes naquele momento.

E entras noutra... e segues caminho.

Às vezes, sentes mesmo que não estás na carruagem certa, mas a luz escura que vem do túnel assusta.
O desconhecido e a incerteza são bilhetes inválidos para quem precisa de coragem para avançar, passar a cancela... mas tem medo.

De repente... aquele momento.

Sentes-te a aproximar de uma estação que em tudo te leva a ter certezas.

Te acorda.
Te dá esperança.
Te conforta.
Te tranquiliza.
Te enche o peito.
Te faz vibrar.

As portas abrem...
É nesse momento que apareces tu.

À minha espera.
De sorriso desconcertante.
Olhar que me faz sentir certezas.

Cheguei!

Tenho 44 anos.

Fartei-me já de viajar por tantas estações nesta linha da vida.
E penso, é mesmo nesta estação que quero sair!

Não.
Penso melhor. Não vou sair

Não é medo...

convido-te a entrar e a fazer o resto da minha viagem comigo...


Ana Paula Ribeiro